Larissa cresceu próxima da natureza e viveu uma aventura única que a fez repensar seus hábitos, questionar sua forma de consumir e buscar se reconectar com o planeta. Hoje, aos 30 anos, ela é educadora ecológica, fundadora do Núcleo Muda – uma produtora de conteúdo criativo – e usa seu trabalho e sua influência na internet para inspirar mudanças. Larissa defende que “ao compartilhar histórias, somos capazes de fazer outras pessoas se questionarem e mudarem a forma de viver e se relacionar com a natureza”, por isso, hoje compartilhamos a dela. Vem conferir!

1. Como começou sua preocupação com a sustentabilidade e como esse se tornou o seu estilo de vida?

Larissa Colombo: A minha relação com a natureza começou muito cedo e a partir do alimento, por influência da minha avó materna. Por sempre ver ela ali cozinhando, pegando as coisinhas na horta, eu fui aprendendo a cozinhar e esse é um dos meus grandes dons hoje. Eu vejo vários alimentos e sem receita nenhuma eu vou alquimizando aquilo ali. Então eu sinto que a minha relação com a natureza começou a partir daí. A palavra sustentabilidade hoje, pra mim, é inclusive muito questionável, porque eu acho que muitas ações, maneiras de viver e de enxergar a natureza não tem como ser sustentável, sabe? Mas se fosse falar nesse sentido geral de sustentabilidade, a minha relação começou com o alimento. Eu dei aula de culinária natural durante algum tempo e a minha prioridade era levar as pessoas para o mais próximo da origem do alimento, para o feirante, para ver de onde o alimento vinha, o ser humano por trás. E, depois, eu morei três meses em alto mar, um mês entre Moçambique, Madagascar e Filipinas e no último mês eu morei nas Filipinas numa embarcação à vela, uma réplica de 300 anos d.C. Um barco sem banheiro, sem quarto, sem nenhuma estrutura do que eu achava que precisava pra viver e ali muita coisa me despertou, porque eu comecei a ver as montanhas de plástico nas ilhas, ver o que as pessoas faziam com aquilo ali, não existe lugar para reciclar, para lidar com aquele lixo. Aquilo me fez questionar muito tudo que eu consumo, o ‘de onde vêm’ do alimento, que era minha pergunta, se estendeu para o ‘para onde vai?’. Para onde vai tudo que eu consumo? De que é feito? O que foi preciso para aquilo virar o que virou? Como as minhas escolhas estão impactando no todo? O que é conveniente e o que são facilidades e eu posso deixar de usar, deixar de consumir? Se estendeu para muitos outros questionamentos e foi quando eu comecei a unir meus com estudos, com o que eu já trabalhava na culinária natural. Comecei a estudar sobre agrofloresta, permacultura, consumo consciente, novas economias, unir tudo isso e ser hoje o que eu chamo de uma educadora ecológica.

2. A moda sustentável fez parte desse processo? Como é sua relação com esse tema hoje?

LC: A moda sustentável é uma extensão disso, né? Eu sempre fui uma pessoa extremamente consumista nesse sentido de comprar roupas, sempre gostei da moda como maneira de expressar minha identidade, mas eu entendi que ali tinham muitas incoerências do que eu já acreditava, do que já pregava em relação ao alimento. E foi natural. Eu sinto que quando a gente vai mudando uma área e aquilo de fato toca no seu coração – porque as mudanças só são efetivas se tocam no seu coração – vai se estendendo para outras áreas da vida. É como um nó que está ali, com vários fios enozados, vai soltando e a gente vai questionando tudo. Tem muito isso de no começo ficar doida, ser radical, questionar tudo e até julgar os outros, mas tudo isso faz parte da minha história, tudo isso faz parte da nossa história como sociedade, a maneira como a gente consome desde lá de trás. Então se perdoar, poder olhar toda essa transformação com amor e falar que o que eu fui ontem eu já não sou hoje e tudo bem. Esse movimento vai continuar, essas transformações vão continuar e é ótimo para não ficarmos nesse lugar polarizado que muitas vezes a gente tá, de julgar os outros, de ficar ditando certo e errado, então a moda também veio na extensão de todo esse questionamento.

3. Você promove uma boa relação com o corpo e com a natureza através do consumo consciente. Como a união desses três temas impacta a sua vida e das mulheres que te seguem?

LC: Eu sinto que quanto mais a gente vai se sentindo natureza, a gente vai olhando para a natureza com similaridade e vai entendendo que o tempo inteiro a gente é bombardeada com falsas necessidades, do corpo perfeito e tudo isso, a gente vai percebendo que a gente não precisa disso, que o que a gente precisa na verdade é aceitar as nossas singularidades, as nossas individualidades. Eu sinto que os homens são muito pouco condicionados em termos de aparência como nós somos, as mulheres sofrem uma grande tendência de moda corporal o tempo inteiro: um ano é mais legal ter muito peito, no outro é mais legal ter barriga de tanquinho, no outro uma sobrancelha marcada e botox na boca. Nós mulheres sofremos muito essa ditadura de beleza, então eu sinto que essa relação corpo, natureza e consumo consciente, esses três temas vão formando esse tripé que nos dá oportunidade de de questionar e, mais uma vez, de nos perdoar e olhar e falar “no meu tempo, eu quero ser natural”, quando eu morrer eu quero ir de uma forma natural, não ter um artifício dentro de mim. Quantos artifícios tem dentro da gente e quão artificial a gente é? Acho que essas são duas perguntas que vêm pra mim às vezes e eu procuro passar isso também. E algo que vem muito junto com o corpo, natureza, consumo consciente é esse lugar de patriarcado, da gente entender que absolutamente tudo que a gente vive hoje passou por essa influência, essa dominação do homem sobre a carne, sobre a mulher, esse lugar de poder. E a gente tem que, juntas, cada vez mais, botar pra fora, porque a gente guarda muitas opressões. A gente precisa fazer esse retorno de amigas, de geradoras. Nós somos geradoras assim como o planeta Terra e existe uma grande potência nisso, uma grande magia. E isso é uma intenção minha: enaltecer cada vez mais esse papel, esse lugar da mulher de geradora, essa proximidade com a natureza.

4. Para você, como sua forma de vestir e expressar através das roupas reflete essa relação?

LC: Eu já fui muito podada por esse patriarcado, por achar que muito do que eu estou fazendo é errado, a saia curta, isso e aquilo são coisas provocativas e hoje eu não ligo pra isso. Sim, nós sofremos muitas opressões, por exemplo, eu moro na praia e não posso ir na praia à noite, é perigoso, não é um lugar que eu me sinto confortável, mas eu tento cada vez mais me vestir de uma maneira leve. De uma maneira que eu me sinta de fato confortável, sem nada me apertando, nada que eu precise expor o meu corpo. O objetivo da roupa é cobrir meu corpo, né? Eu adoro moda como forma de expressão, cores… Minha forma de me vestir é muito eclética, eu não tenho um padrão, eu sou bem colorida.

5. E como a moda sustentável e o consumo consciente podem ajudar a mudar o mundo? 

LC: Tem uma palavra nessa pergunta que é o ‘consciente’. Isso que pode ajudar a gente a mudar o mundo. Somos muito pouco conscientes das nossas ações, nós fomos muito pouco ensinados a questionar de onde vem, para onde vai, tá tudo muito pronto alí. Na verdade, a gente não foi ensinado a questionar, a gente foi ensinado a responder respostas prontas, como exemplo, e eu gosto muito de falar isso, na escola, a prova tem sempre uma resposta certa e errada, a professora procura o que ela quer, o que o sistema quer, não é a sua individualidade, a sua interpretação. E como a moda e o consumo consciente podem ajudar a mudar o mundo é com essa consciência mesmo, essa predisposição a questionar, a estourar essa bolha que todos nós estamos dentro. Todos nós somos analfabetos ecológicos. A gente chega numa rua e sabe o nome de várias marcas que tem lá em várias lojas, mas a gente não sabe o nome das árvores, das plantas que estão ao nosso redor. Então, pra mim, tudo parte desse lugar de questionar, de romper essa bolha e de querer. Acho que é muito importante intencionar, sentir de fato, de coração, que você quer fazer parte dessa mudança, que você quer mudar o mundo. Hoje, eu, Larissa, acredito plenamente que o mundo precisa do meu trabalho, do que eu posso disponibilizar, do que eu amo e isso é muito importante, a gente se apoderar desse lugar de educador, ambientalista, de professor, aluno e ativista.

6. Um recado para outras mulheres que, assim como você, desejam participar dessa transformação?

LC: Que possamos nos vestir com nossa própria pele. Cada vez mais nos olhar sem uma comparação nociva. É importante a gente se comparar pra mergulhar mais fundo na vida, dar saltos, mas que a gente respeite e ame as nossas individualidades, as nossas singularidades. Que a gente se apodere dessa capacidade inata que nós temos de gerar a vida, que é a maior similaridade que a gente tem com a natureza. Natureza eu falo no total: seres vivos, elementos, tudo. Que a gente se conecte com nosso corpo, nosso útero, nosso coração, porque aqui dentro passam as mesmas energias que estão na natureza. A gente tem esse fio condutor direto, essa chave de ligação, basta lembrar que nós somos natureza.

7. Por fim, quer deixar alguma indicação de livro, filme, documentário, etc. sobre essa temática?

LC: Eu gosto muito de um livro que é Alma Imoral, que também tem uma peça de teatro. Eu já assisti essa peça umas cinco vezes. Indicaria para as pessoas lerem mais sobre a história do Pepe Mujica, os livros A Profecia Celestina de James Redfield, que eu amo muito, Sidarta de Hermann Hesse, A Teia da Vida de Fritjof Capra, A Enérgica dos Alimentos de Steve Gagné, Solo, Alma e Sociedade de Satish Kumar. Amo um filme de desenho que se chama Moana, também Professor Polvo, Avatar, A life on our planet – David Attenborough.

Texto e entrevista por Kauara Borim