Gabriela Mazepa é artista e, desde 2013, diretora criativa do Reroupa, projeto em que promove oficinas de criação coletiva e transforma roupas e resíduos têxteis em novas peças. Há anos trabalha com reaproveitamento de tecidos e questiona os processos de produção e consumo que geram impactos ambientais. Acredita que “moda e roupa são muito mais do que a camada de superfície que recobre o corpo” e, por isso, usa do Reroupa para disseminar novos modos de existir e criar.

1. Como começou sua preocupação com a sustentabilidade e como esse se tornou o seu estilo de vida?

A minha preocupação com esses temas começou quando fui fazer meu projeto de graduação numa faculdade de arte têxtil e usei como matéria prima tecidos que já existiam, roupas de pessoas que eu fui coletando, transformando e contando a história. Isso foi um projeto bem autoral, que se transformou no motor do que é o Reroupa hoje. Eu fui entendendo nesse momento duas coisas: que existia uma matéria prima em excesso, porque as pessoas tinham muitas coisas em casa, eram muitas vezes incentivadas a comprar muito mais do que elas precisavam ter, então elas tinham essa roupa para doar e logo depois entendi que as indústrias e empresas também tinham; e que nem sempre isso era feito de uma maneira coerente, não era uma cadeia bem distribuída, não era bom para todo mundo envolvido. Então, desde esse começo eu já entendi essas duas chaves do social e do excesso ambiental que guiaram o meu trabalho.

2. A moda sustentável fez parte desse processo? Como é sua relação com esse tema hoje?

Minha relação com o tema moda sustentável, especificamente, foi o que eu sempre fiz desde a minha formação, então já fazem mais de 10 anos que eu trabalho dessa forma. Eu entendo o Reroupa muito mais como um projeto educacional, com base em oficinas e capacitações de grupo do que uma marca de moda sustentável. Até porque, muitas vezes, eu acho que esses termos se esvaziam numa tentativa das pessoas quererem fazer parte desse nicho, sem necessariamente agir de forma coerente. Então, eu não utilizo muito desses termos, eu simplesmente venho me envolvendo em projetos que eu acho que façam sentido e que possam criar e incentivar formas de produção menos agressivas do ponto de vista ambiental e social.

3. Para você, como sua forma de vestir e expressar através das roupas reflete essa relação?

Eu tento buscar esse tipo de parceiro quando posso, eu compro bastante roupa de segunda mão, acho que é uma maneira de incentivar esse tipo de consumo, e faço também muitas das minhas roupas. Para mim, são novas formas de produzir e consumir, não tão baseadas assim nas tendências. Não sou uma pessoa que vai trocar de guarda-roupa a cada estação ou de tanto em tanto tempo, apesar de comprar coisas como todo mundo compra, mas busco essas outras alternativas também.

4. São muitas as mulheres envolvidas no seu projeto? Qual é a importância do trabalho feminino aliado à sustentabilidade?

Na equipe do Reroupa a gente sempre teve uma maioria de mulheres e continua sendo hoje. Quando a gente fala de mercado de trabalho ligado à costura, ao artesanato e às manualidades principalmente, a gente também tem uma maioria de mulheres. Os projetos em cooperativas, em comunidades, em 90% dos grupos a gente tem a participação de mulheres e eu acho que é importantíssimo porque, muitas vezes, são mulheres que não conseguiram entrar ou se manter no mercado de trabalho justamente pela condição de serem mulheres, muitas vezes mães, e não darem conta dos horários, das distâncias, de trabalhar e cuidar da casa, sendo que a gente ainda se encontra nesses panoramas da mulher como o apoio principal da casa. Eu acho que tem uma coisa importante nesses trabalhos que é poder descentralizar ele de grandes centros de produção. As mulheres conseguem fazer seus trabalhos em casa e cuidar dos filhos ao mesmo tempo dos projetos que a gente faz e são formas de gerar renda para essas mulheres sem que elas precisem se ausentar das outras tarefas.

5. E como a moda sustentável e o consumo consciente podem ajudar a mudar o mundo? 

Eu acredito em formas de fazer e consumir que possam mudar o mundo. Eu não utilizo muito esses termos. As novas formas de fazer, que na verdade nem são tão novas – repara que a gente tá voltando a falar de artesanato, do fazer manual, do feito em casa, que são formas super antigas -, elas são, de certa forma, menos agressivas ao meio-ambiente e à sociedade. Porque não se trata de extrações desenfreadas, de um consumismo tão desenfreado. São pequenas maneiras de mudar o mundo como ele está e o consumo dessas coisas é fundamental para que essas pessoas continuem incentivadas a fazer, porque se eu fabrico um produto que é feito de uma maneira super legal, pago bem as pessoas e extraio pouco do meio ambiente, mas ninguém compra, eu vou parar. O consumo desse material também é importante, essas são pequenas formas de modificação do mundo. Eu não acho que vai haver uma grande mudança, são pequenas mudanças que vão acontecendo aqui e ali e que vão incentivando outras pessoas a precisarem de menos, a produzirem diferente, a dividirem mais e por aí vai.

6. Um recado para outras mulheres que, assim como você, desejam participar dessa transformação?

É sempre essa coisa da coragem, né? Entender o que cada um pode fazer dentro desse sistema que é tão predatório, no sentido da gente se sentir refém dele. Não é todo mundo que pode parar o seu trabalho para criar uma própria marca de coisas orgânicas, sustentáveis. Não é assim que funciona infelizmente. Mas eu acho que começar a se informar, prestar atenção no que pode ser feito, criar redes locais, redescobrir seus próprios talentos, que são coisas que as mulheres muitas vezes deixam de fazer por conta da correria da vida, então eu acho que são essas coisas. Se interiorizar mais, prestar atenção no que se quer realmente e depois entender se é possível, porque, como eu falei, a gente vive num país extremamente desigual, não é todo mundo que pode consumir isso que chamam de um produto mais ‘consciente’ e não é todo mundo que pode parar tudo para fazer. Se possível, estar atenta a como agir dentro dessa máquina que é esse sistema que a gente vive sem sentir tão sobrecarregada por ele.

7. Por fim, quer deixar alguma indicação de livro, filme, documentário, etc. sobre essa temática?

Livros que me inspiraram muito para o Reroupa foram os de educação, principalmente do Paulo Freire, e eu gosto muito da visão de mundo do Milton Santos, tem alguns livros e documentários dele sobre globalização que foram bem fundamentais para a minha formação e para eu entender o que eu queria fazer no mundo. Não são coisas de moda, são pensadores que observam o mundo e pensam em como podemos agir enquanto seres humanos através da educação, do discurso, das micropolíticas para essas transformações acontecerem, então eu gostaria de deixar esses dois nomes porque de fato foram dois nomes que me incentivaram muito.

Texto e entrevista por Kauara Borim