Com um copo retrátil, Fe Cortez descobriu que é possível pensar em grandes transformações a partir de pequenas atitudes. Após algumas mudanças de hábitos e a criação do Menos 1 Lixo, se viu como ativista ambiental. Hoje, aos 38 anos, está escrevendo seu primeiro livro, é apresentadora, escritora, palestrante e engajada em mudar o mundo.

1. Como começou sua preocupação com a sustentabilidade e como esse se tornou o seu estilo de vida?

A minha preocupação com sustentabilidade começou quando eu assisti ao Trashed, um documentário do Jeremy Irons, em 2012, em que ele aborda o problema do lixo no mundo. Aí eu percebi que o lixo é resultado de um sistema econômico, político, social, mas também resultado do meu consumo. Eu comecei mudando meus hábitos e eliminando o copo descartável da minha vida e isso deu origem ao copo do Menos 1 Lixo e deu origem ao movimento Menos 1 Lixo. O copo é uma ferramenta muito importante na transformação do comportamento, porque você usa o tempo inteiro o copo retrátil que anda com você. Eu, na época, comprei um pequenininho que vinha da China, comecei a usar e vi como ele era poderoso quando dei de presente para alguns amigos que passaram a reparar no lixo que eles geravam e o lixo é só a ponta do iceberg. Quando você vai fazendo o caminho de volta, para onde ele vai de onde ele veio, você entende que é o modelo de produção linear, de descarte, de não ter uma economia circular e da economia ser direcionada para o consumismo. Então, eu comecei a entender isso e resolvi levar essas informações para um público maior criando o Menos 1 Lixo.

2. A moda sustentável fez parte desse processo? Como é a sua relação com esse tema hoje?

A moda sustentável faz parte do processo.  Como todas as indústrias, está em transição. Hoje não existe nada realmente 100% sustentável. Existem, mas muito poucas coisas. Nenhuma indústria como um todo é 100% sustentável. O que eu vejo são algumas iniciativas e algumas empresas que nascem com esse viés, só que, na verdade, como a economia não é circular, elas nascem a partir de um erro de design de outras, por exemplo, quando a gente pensa em empresas de upcycling. Elas nascem com um pensamento ainda antigo da economia linear e tentando fazer essa economia linear se transformar em uma economia circular. Eu já trabalhei com moda por 10 anos, hoje minha relação com a moda mudou muito. Eu tenho um guarda-roupa inteligente ou armário cápsula, eu consumo muito menos, faço muitas das minhas roupas, faço tricô, crochê, costuro, compro em brechó, mas, mais do que isso, eu vejo a moda como uma maneira de expressar minha identidade e não algo que eu tenha que seguir pra ser aceita e eu acho que essa é a grande mudança.

3. Mulheres e sustentabilidade é o tema do nosso projeto. Como a união destes dois pode transformar nossas vidas?

[O assunto central do meu site é comportamento de consumo e mudanças sistêmicas, plastico, lixo, resíduos… relacionados ao consumo] Eu acho que as mulheres têm uma capacidade maior de ancorar valores femininos, de cuidado, de regeneração, de visão sistêmica, de compaixão, de olhar pro outro, de empatia e de amor. Não porque os homens não tenham um lado feminino, mas porque esse lado feminino nos homens,numa sociedade patriarcal, ele vem há muitos séculos sendo atrofiado. Então, hoje são as mulheres que ancoram esses valores e eu acredito que são os valores do feminino que vão conseguir regenerar o planeta e quando a gente pensa que as mulheres são as que mais sofrem todos os danos desse modelo patriarcal e de um modelo insustentável como, por exemplo, todos os danos das mudanças climáticas, quem mais sofre e mais vai sofrer são as mulheres e as mulheres mais pobres. Elas que cuidam das casas, que são as responsáveis pelo alimento, pelo cuidado dos filhos e quando a gente pensa em sustentabilidade, elas serão as mais beneficiadas com a solução de um mundo insustentável, a transformação dele para um mundo regenerativo. Mas também porque as mulheres têm uma capacidade de cuidar que vai ser alicerce para essa transição, para esse novo olhar pro mundo e essa nova era.

4. Para você, como a moda sustentável e o consumo consciente podem ajudar a mudar o mundo?

Primeiro, através de uma sinalização para as grandes marcas de que a forma que elas estão fazendo não vai mais ter mercado. Se formos muitos consumidores com essa consciência sobre o impacto do seu consumo, a gente pode partir para uma ação de sociedade civil organizada. Eu acho que o consumo consciente é uma porta para a gente ir além, porque não pode depender só da minha escolha, se eu escolho uma garrafa pet ou uma latinha, eu preciso que hajam incentivos fiscais e leis que diminuam ou até eliminem a participação da garrafa pet para a gente ter só latinha, por exemplo. Outras formas de fazer. Porque, se não, é uma competição desleal, o capitalismo prega que o mercado se autorregula, mas é mentira quando você vê a indústria do petróleo cheia de subsídio e o plástico é oriundo do petróleo. A gente precisa corrigir essas mentiras e o papel do consumo consciente e da moda sustentável é conectar as pessoas com esse tema para que elas sejam porta-vozes e que elas tenham um papel na comunidade, que é o que todos deveriam ter, porque todos fazemos parte de uma comunidade que é o planeta. Então, eu acho que é isso, que através dessas atitudes a gente começa a ancorar uma outra visão de mundo e a pressionar empresas e governos a mudarem a forma como fazem as coisas.

5. E como sua forma de vestir e expressar através das roupas reflete o estilo de vida que você leva?

Ter um guarda-roupa inteligente, um armário cápsula é muito isso, né? Repetir muito as roupas, ter roupas que fazem sentido com o que eu prego que é conforto, liberdade de expressão, bem-estar, que os materiais sejam materiais que na medida do possível agridam menos ao meio ambiente. Mas não só isso, a forma como eu cuido das minhas roupas, eu não uso amaciante, eu não uso sabão em pó de marcas comuns, eu ralo meu sabão de côco e uso de marcas que estão preocupadas com o meio ambiente, que são biodegradáveis, que vem em embalagem de papel, enfim. A roupa e o cuidado com ela expressam muito. Quando você é ativista ambiental, você acaba mudando muitas coisas na sua vida. Ativista ambiental tem uma vida perfeita? Perfeita não, porque o sistema não me permite ainda, por exemplo, não consumir plástico, mas na medida do possível, a gente vai mudando nossos hábitos e nosso consumo para que ele seja cada vez mais coerente com a nossa visão de mundo.

6. Um recado para outras mulheres que, assim como você, desejam mudar o mundo?

Vai fundo! Não se deixem abater pelo patriarcado, por mensagens de que você é louca. Isso sempre foi usado para tentar dissuadir as mulheres dessa persistência que elas carregam naturalmente, a persistência de gerar a vida e de cuidar dessa vida. Eu acho que a gente tá caminhando para um sistema que tem que gerar vida, porque o de hoje só gera morte. Mulheres que querem mudar o mundo são mulheres que querem fazer com que a vida floresça, então não desistam. A gente precisa cada vez mais de mulheres unidas porque, justamente, a gente vai transformar esse sistema tendo as mulheres à frente dessa nova forma de pensar, isso eu tenho certeza. E não é inverter papéis, colocando as mulheres como as grandes poderosas e os homens servindo a elas, na minha visão não é isso, é a gente começar a ter uma sociedade onde tenham mais divisão de papeis e uma igualdade de oportunidades, de voz, de tomada de decisão entre homens e mulheres. 

7. Por fim, quer deixar alguma indicação de livro, filme, documentário, etc. sobre essa temática?

Documentário, o Trashed, com certeza. Livros, tem tantos, mas eu gosto muito do Economia Donut, da Kate Raworth, porque a gente precisa entender o que está acontecendo na economia, para entender o que está acontecendo sistemicamente, ele é bem didático, é um livro de economia para não economistas e eu indico muito. E eu vou lançar meu livro em breve, espero que todas, todes, possam ter acesso a esse projeto que está sendo feito com tanto carinho e que é para levantar muitos desses questionamentos.

Texto e entrevista por Kauara Borim